Santana Mestra - Obra de Antônio Francisco Lisboa. 1738 - 1814. Museu do Ó de Sabará (MG).
Que representações de mulheres letradas eram encontradas nas imagens femininas circulantes na Colônia?
Educação de Mulheres no Brasil Colônia
(1540 – 1759)

O que nos dizem as imagens sacras femininas?

Até onde podemos inferir, a representação feminina mais comum de ser encontrada, na época do Brasil colônia portuguesa, estava na forma de santas.

Na categoria de imagens sacras, várias figuras femininas eram presentes em espaços públicos e privados, tanto em cultos oficiais como nos diferentes lares brasileiros.

Neste texto, não há a pretensão de um estudo da arte sacra da época. A proposta é olharmos, com um pouco mais de atenção, para esses vestígios.

Imagens de santas

Ao refletirmos sobre imagens de santas ou de santos católicos, devemos considerar que suas construções iconográficas partem das narrativas das histórias de suas vidas e possuem usos pedagógicos nos esforços educativos pelo viés religioso.

Devemos ter clareza, ainda, de que, como lembra Lima (2015) “ao longo da história cristã, por conta de seu uso prático, as imagens teriam se metamorfoseado em presença, ultrapassando a função simbólica de representar e ser símbolo da história do santo .

Percorrendo esta lógica, podemos inferir que muitos dos devotos e das devotas, que viveram no Brasil Colônia, desenvolveram com as santos e com os santos de sua preferência, uma interação simbolicamente para além da esperada pela Igreja.

O que  imagens sacras diziam sobre lugares e papeis sociais e políticos aos homens e às mulheres que vivenciaram o Brasil Colônia,?

Creio não ser possível termos a resposta a esse questionamento, mas podemos nos atrever a tecer algumas considerações na busca de elementos para pensar a educação das mulheres.

As imagens sacras ornamentaram e sinalizaram os espaços de religiosidade de diferentes lares brasileiros.

Encontramos nas das entradas casas e nos oratórios presentes em suas salas de estar. Estavam presentes em medalhas ornando colos, nas mesinhas ao lado da cama, em pequenos oratórios nos quartos de dormir.

Grande parte dessas imagens representava mulheres.

As santas são ambivalentes

Em sua pesquisa etnográfica em relação à devoção à Santa Rita na atualidade, Lima (2015) concluiu que “a santa é uma (ou muitas) mulher(es) e, como tal, apresenta gostos socialmente esperados do gênero feminino, como o de gostar de receber flores, por exemplo”.

Ainda, de acordo com Lima, a santa “tem características de uma pessoa, posto que dotada de sentidos humanos: ela ouve, vê, sente, expressa-se, ao mesmo tempo em que é ambivalente, já que também é considerada sagrada”.

NOSSA SENHORA DA PENA

Imagens de mulheres representadas desenvolvendo atividades de escrita ou leitura ou exibindo ícones de instrução como livros, penas, pergaminhos eram raras.
As existentes, em geral, estavam no rol das imagens sacras.

Nesta categoria, Nossa Senhora da Pena – protetora das artes, letras e ciências – valoriza o conhecimento; contudo, esta representação dessa Nossa Senhora não foi comum no Brasil.

Uma santa pouco popular na Colônia

Salvo engano, as únicas existentes e veneradas em nossas terras são:

  • a presente na Igreja de Nossa Senhora da Pena, em Porto Seguro, Bahia;
  • a que se encontra no Rio de Janeiro (RJ) no bairro Jacarepaguá (Rio de Janeiro/RJ) e
  • as duas encontradas no Estado de Minas Gerais: uma em Buritis e outra em  Rio Vermelho[1].
Interessante, observar, que no Rio de Janeiro, a santa renascentista perdeu o seu sentido relacionado ao mundo da cultura: o termo pena passou a ser entendido como sinônimo de castigo.
Imagem de Nossa Senhora da Pena
Imagem de Nossa Senhora da Pena. Porto Seguro (BA)

SANTA ANA

Entre as imagens sacras femininas portando ícones que remetam ao conhecimento e/ou à instrução, a grande maioria são representações de Santa Ana, também conhecida como Santana ou Sant’Ana.

As primeiras imagens de Santa Ana chegaram ao Brasil na bagagem de colonizadores portugueses.

Mãe de Nossa Senhora e avó de Jesus Cristo, Santa Ana era entendida como protetora dos lares, das mulheres, das mães e educadoras de meninas e moças no caminho das virtudes cristãs.
Protegia as mulheres grávidas, as donas de casa e várias profissionais como professores, mineradores, rendeiras.

As imagens de Santa Ana Guia costumam apresentar Maria Menina em pé ao lado de Santa Ana.

Observando a imagem 3, percebemos a mão firme de Santa Ana que conduz Nossa Senhora.

Nesta imagem, quem porta o livro é Santa Ana.

Na figura 2, é a Menina Maria quem segura o livro. A Menina é representada de mãos dadas com sua mãe e parecem conversar através do olhar. A posição da mão e a expressão corporal de Santa Ana sugerem que ela instrui Nossa Senhora.

Imagem 2: Santana Guia – século XVIII – madeira policromada. Imagem 3: Santana Guia – século XVII. Barro cozido policromado.
A Santana Mestra de Aleijadinho (figura 4) apresenta ideia de interação da Mãe Mestra com a Filha através da atividade de leitura ou do ensino.

Ambas estão concentradas na atividade leitora e as posições das mãos reforçam a ideia de ação educativa.

Diferente é a Sant’Ana Mestra datada do século XVII (figura 5).

Nessa imagem, há o livro aberto, contudo, a imagem não apresenta a ideia de interação entre mestra e aprendiz e nem a concentração nos escritos do livro, como na obra de Aleijadinho.

FIGURA 4

Santana Mestra – Obra de Antônio Francisco Lisboa. 1738 – 1814. Museu do Ó de Sabará (MG).

FIGURA 5

Estatueta, datada do século XVII, representando Santa Ana Mestra.
Sant’Ana Mestra – autor desconhecido – século XVII – São Paulo.
Não podemos pensar o livro representado nas imagens de Santa Ana como um exemplo de educação acadêmica, antes, ele representa a educação cristã.

Reforça a ideia de a educação das moças ser uma responsabilidade materna, prevista na esfera privada e voltada para a vida doméstica.

Em uma imagem (figura 6), datada do século XVII, encontramos São Joaquim, marido de Santa Ana, representado junto a ela e Nossa Senhora Menina.

Entre outros aspectos, chama à atenção a posse do livro.

O centro da imagem é Santa Ana.
O chefe da família, São Joaquim, é quem segura o livro. 

Sant’Ana Mestra (centro) ladeada por São Joaquim e Nossa Senhora com um querubim (sobre a família)
Gostaria de ler mais sobre educação das mulheres que viveram durante o período colonial da história brasileira?

Vide <  EDUCAÇÃO DE MULHERES NO BRASIL COLÔNIA PARTE III  >.

A  AUTORA:

Patrícia Rodrigues Augusto Carra. Editora de Histori-se. Doutora em Educação, psicopedagoga, historiadora, professora titular aposentada do EBTT.
Notas:
  1. No Rio de Janeiro, a imagem está na Igreja Nossa Senhora da Penna localizada no bairro de Jacarepaguá. Na cidade de Buritis, está na Matriz de Nossa Senhora da Pena. A padroeira das cidades de Buritis (MG) e de Rio Vermelho (MG) é Nossa Senhora da Pena.

Dados para citar este texto:

CARRA, Patrícia R. Augusto. Educação de mulheres no Brasil Colônia PARTE II (1540 – 1759). Histori-se, Porto Alegre, março 2021. Disponível [on-line] em <https:/brasil-colonia-educacao-de-mulheres/ >.

Referências
  • ALGRANTI, Leila Mezan. Honradas e devotas: mulheres da colônia. Condição feminina nos conventos e recolhimentos do Sudoeste do Brasil, 1750-1822. Rio de Janeiro: José Olímpio, Brasília: Edunb, 1993.
  • ALVES, Célio Macedo. Um estudo iconográfico. In: COELHO, Beatriz (org.). Devoção e arte: imaginária religiosa em Minas Gerais. São Paulo, EDUSP, 2005.
  • LIMA, Raquel dos Santos Sousa. Sobre presença e representação nas imagens dos santos católicos: considerações a partir de um estudo sobre a devoção à Santa Rita. Relig. soc., Rio de Janeiro, v. 35, n. 1, p. 139-163, jun.  2015. Disponível em <>. Acesso 07 fevereiro 2021. Páginas 141 e 157.
  • SANTOS, Jadilson Pimentel dos. As Santanas da Antiga Vila da Santa Ana de Santo Antônio do Tucano. VIII EHA. Encontro de História da Arte, 2012. P. 257 a 266.
  • TOBIAS, José Antônio. História da Educação Brasileira. 3 ed. São Paulo: IBRASA, 1986.
Imagens:
FIGURA 1. Nossa Senhora da Pena. Autor desconhecido.

Imagem presente em cartão postal da cidade de Porto Seguro/BA, Brasil. Acervo particular.
Nota – Esta imagem pertence à Igreja de Nossa Senhora da Pena, localizada na cidade de Porto Seguro (BA). Segundo narrativas locais, o donatário Pero de Campos Tourinho, devoto de Nossa Senhora da Pena, construiu a igreja no ano de 1535 e trouxe a referida imagem de Portugal. Nossa Senhora da Pena é padroeira da cidade de Porto Seguro. Este donatário viveu no Brasil de 1535 a 1546 (11 anos).

FIGURA 2. Santana Guia (Santana e Maria Criança).

Museu de Arte da Bahia  (MAB). Salvador. Bahia. Imagem disponível [on-line] em:<>.Acesso em fevereiro de 2021.

FIGURA 3. Santana Guia. Proveniente da Igreja Matriz de Santana da Parnaíba.

Acervo do Museu de Arte Sacra de São Paulo.Imagem disponível [on-line] em:<>.Acesso em fevereiro de 2021.

FIGURA 4. Santana Mestra. Antônio Francisco Lisboa (Aleijadinho). 1738 – 1814.

Proveniente da Capela de Nossa senha do Pilar. Sabará. Museu do Ó de Sabará. Minas Gerais. Imagem disponível [on-line] em:<>.Acesso em fevereiro 2021.

FIGURA 5. Sant’Ana Mestra. Acervo do Museu de Sant’Ana (imagem 0304).

Tiradentes. Minas Gerais. Disponível [on-line] em <>.Acesso em fevreiro de 2021.

FIGURA 6. Sant’Ana Mestra (posição frontal) ladeada por São Joaquim e Nossa Senhora, com um querubim acima.

Acervo do Museu de Sant’Ana (imagem 0226) . Tiradentes. Minas Gerais. Imagem disponível [on-line] em <>. Acesso em fevereiro de 2021.

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