Sant’ Ana e a educação de meninas e mulheres no Brasil colonial
Entre as imagens sacras femininas apresentadas com ícones que remetem ao conhecimento ou à instrução, a grande maioria são representações de Santa Ana, também conhecida como Santana ou Sant’Ana.
No Brasil, dos tempos coloniais essa Santa era muito popular.
O fato de, em suas imagens, geralmente encontrarmos a figura de um livro – ou ainda de, em muitas delas, a Santa estar representada ensinando a Menina Maria com o auxílio de um livro – pode nos levar a inferir um incentivo à instrução das mulheres.
Será?
I. Santa Ana no Brasil Colonial
As primeiras imagens de Santa Ana chegaram ao Brasil na bagagem de colonizadores portugueses.
Mãe de Nossa Senhora e avó de Jesus Cristo, Santa Ana era entendida como protetora dos lares e das mulheres.
Protetora das mães e das mulheres que educavam meninas e moças no caminho das virtudes cristãs.
Sant’Ana, ainda, guardava e protegia as mulheres grávidas, as donas de casa e diversos profissionais como professores, mineradores e rendeiras.
As imagens de Santa Ana Guia costumam apresentar a Maria Menina em pé ao lado de Santa Ana.

Observando a imagem acima, percebemos a mão firme de Santa Ana que conduz Nossa Senhora representada como, ainda, uma menina.
Nesta representação, quem porta o livro é Santa Ana.
A seguir, observe que na imagem 2, é a Menina Maria quem segura o livro.

Imagem 2: Santana Guia – século XVIII – madeira policromada. Imagem 3: Santana Guia – século XVII. Barro cozido policromado.A Menina é representada de mãos dadas com sua mãe e parecem conversar através do olhar.
A posição da mão e a expressão corporal de Santa Ana sugerem que ela instrui Nossa Senhora.
Já na representação de Santa Ana esculpida pelo escultor Aleijadinho podemos perceber detalhes diferentes. Observe.

A Santana Mestra de Aleijadinho apresenta a ideia de interação entre a Mãe Mestra e a Filha através da atividade da leitura ou do ensino.
Ambas estão concentradas na atividade leitora e as posições das mãos reforçam a ideia de ação educativa.
Diferente é a Sant’Ana Mestra datada do século XVII

Nessa imagem, há o livro aberto, contudo, a imagem não apresenta a ideia de interação entre mestra e aprendiz e nem a concentração nos escritos do livro, como na obra de Aleijadinho.
II. O livro
Não podemos pensar o livro representado nas imagens de Santa Ana como um exemplo de educação acadêmica, antes, ele representa a educação cristã.
Reforça a ideia da educação das moças ser uma responsabilidade materna, prevista para ser ministrada na esfera privada e voltada para a vida doméstica.
Em uma imagem, datada do século XVII, encontramos São Joaquim, marido de Santa Ana, representado junto a ela e Nossa Senhora Menina.
Entre outros aspectos, a posse do livro chama a nossa atenção. Repare.
O centro da imagem é Santa Ana.
O chefe da família, São Joaquim, é quem segura o livro.

Série Imagens Sacras e educação feminina
Este é o texto II. Confira os anteriores.
- Introdução: As Santas e a educação feminina – Brasil Colonial.
- Texto I: Nossa Senhora da Pena
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Dados para citar este texto:
CARRA, Patrícia R. Augusto. Imagens Sacras de Sant’Ana e a educação feminina. . Histori-se, Porto Alegre, março 2021. Disponível [on-line] em <https:/brasil-colonia-educacao-de-mulheres/ >.
Referências
- ALGRANTI, Leila Mezan. Honradas e devotas: mulheres da colônia. Condição feminina nos conventos e recolhimentos do Sudoeste do Brasil, 1750-1822. Rio de Janeiro: José Olímpio, Brasília: Edunb, 1993.
- ALVES, Célio Macedo. Um estudo iconográfico. In: COELHO, Beatriz (org.). Devoção e arte: imaginária religiosa em Minas Gerais. São Paulo, EDUSP, 2005.
- LIMA, Raquel dos Santos Sousa. Sobre presença e representação nas imagens dos santos católicos: considerações a partir de um estudo sobre a devoção à Santa Rita. Relig. soc., Rio de Janeiro, v. 35, n. 1, p. 139-163, jun. 2015. Disponível em Materialidades do Sagrado . Acesso 07 fevereiro 2021. Páginas 141 e 157.
- SANTOS, Jadilson Pimentel dos. As Santanas da Antiga Vila da Santa Ana de Santo Antônio do Tucano. VIII EHA. Encontro de História da Arte, 2012. P. 257 a 266.
- TOBIAS, José Antônio. História da Educação Brasileira. 3 ed. São Paulo: IBRASA, 1986.
Imagens:
- FIGURA 2. Santana Guia (Santana e Maria Criança).
Museu de Arte da Bahia (MAB). Salvador. Bahia. Imagem disponível [on-line] em:<>.Acesso em fevereiro de 2021. - FIGURA 3. Santana Guia. Proveniente da Igreja Matriz de Santana da Parnaíba.
Acervo do Museu de Arte Sacra de São Paulo.Imagem disponível [on-line] em:<>.Acesso em fevereiro de 2021. - FIGURA 4. Santana Mestra. Antônio Francisco Lisboa (Aleijadinho). 1738 – 1814.
Proveniente da Capela de Nossa senha do Pilar. Sabará. Museu do Ó de Sabará. Minas Gerais. Imagem disponível [on-line] em:<>.Acesso em fevereiro 2021. - FIGURA 5. Sant’Ana Mestra. Acervo do Museu de Sant’Ana (imagem 0304).
Tiradentes. Minas Gerais. Disponível [on-line] em <>.Acesso em fevreiro de 2021. - FIGURA 6. Sant’Ana Mestra (posição frontal) ladeada por São Joaquim e Nossa Senhora, com um querubim acima.
Acervo do Museu de Sant’Ana (imagem 0226) . Tiradentes. Minas Gerais. Imagem disponível [on-line] em <>. Acesso em fevereiro de 2021.

