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e o cão orelha.

Gosto muito do Sr. Newt Scamander. Também considero maravilhosa a profissão que ele desempenha. Um trabalho adorável, que exige amor, compreensão e sobretudo o respeito ao diferente.

Você pode ter percebido que me refiro ao conjunto de películas que inicia com Animais fantásticos e onde eles habitam.

Um dos pensamentos que me marcou dentre aqueles que encerram a filosofia do Sr. Scamander é relativo aos homens.

O jovem bruxo informa ao novo amigo e trouxa, Jacob Kowalski, que precisa encontrar seus animais antes que eles se machuquem porque estão em um lugar estranho, “cercados por milhões da mais perversa criatura do planeta – os humanos”.
Talvez não sejam as palavras exatas, – coisas da memória. O que vale sublinhar é que o Sr. Scamander deixa clara a situação frágil dos animais em relação à crueldade de que os seres humanos são capazes.

Vários episódios de maus tratos aos animais têm ocorrido aqui no Brasil com alguma frequência.

Animais sem nenhum super poder – como aqueles do filme acima citado – , a única potência que possuem e oferecem é um amor sem limites.

Cães ou gatos, esses animais que podem ser criados em casas e apartamentos, em centros urbanos, nos oferecem o que têm de melhor: alegria, afeto, parceria.

Esperam que cheguemos em casa e então nos recepcionam com latidos alegres, ou com um brinquedo na boca, fazendo-nos um convite. E se, ao fim do dia, vamos buscá-los na creche, correm em nossa direção como se nos aguardassem há muitíssimo tempo. Buscam nosso colo, esfregam-se em nossas pernas, oferecem a cabeça ou a barriga para um carinho.

Na Praia Brava, em Santa Catarina, Orelha foi assassinado por rapazes.

Um homem espancou e matou o cãozinho de cinco meses, Billy, em São Paulo. Também em São Paulo, um homem espancou um cão, amarrou o animal a sua moto e saiu dirigindo com o animal machucado.

Em Brasília, Luke, um labrador, foi morto com cinquenta golpes desferidos por um engenheiro florestal que fez uso de um taco de beisebol.

Em Goiânia, em um petshop, uma cachorrinha foi covardemente agredida pelo profissional que fazia a tosa. Ele usava a máquina de tosa para bater no animalzinho.

No Espírito Santo, no município de Serra, um vídeo com crianças maltratando dois filhotes de gato chegou ao conhecimento da polícia que instaurou inquérito. Os pais das crianças foram chamados à delegacia.

No Distrito Federal, um psicólogo foi indiciado pela morte de dezesseis gatos – os bichanos eram adotados e mortos.

Outro tipo de maus-tratos é o abandono de cães em rodovias. Sem chance de defesa, os animais domésticos são vítimas de atropelamento. Ninhadas de gatos e de cães costumam ser deixadas em esquinas de ruas pouco frequentadas, ou em beira de estrada.

Preciso concordar com o Sr. Scamander.
  • Como não ser capaz de amar seres que nos oferecem amor?
  • Como não ser feliz por cuidar de criaturas que nos chamam para brincar e para sorrir, criaturas que se ocupam em nos fazer sentir bem?
  • Como sermos tão arrogantes, considerando-nos o topo da Criação, se não sabemos amar?
  • Por que maltratar seres indefesos, usando habilidades e raciocínio para fazer sofrer, para ser cruel?
Não estou aqui abordando os animais como se fossem mais importantes que uma criança, uma mulher, um velho. Não se trata disso. E não sou a única a abordar esse tema.

Grandes nomes da literatura já abordaram o amor e os maus tratos, como Simões Lopes Neto, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Virgínia Woolf, Guy de Maupassant e Máximo Gorki, por exemplo, no conto Boi velho, em uma cena de caçada em Noites no sertão, na relação entre a criança e o animal em Macacos, no romance Flush – uma biografia, nos contos Coco e Cicatriz respectivamente.

Ocorre que, se o ser humano não pode amar o que lhe é diferente, como vai amar e respeitar outro ser humano?
E, se não amamos, o que somos nós?

Os maus tratos aos animais revelam seres barbarizados, incapazes de empatia, solidariedade, fraternidade, como queiram chamar.

  • Quem maltrata um animal fará o mesmo com um ser humano.
  • Quem maltrata um animal é incapaz de receber e dar afeto.
  • Quem maltrata um animal corrompe sua essência humana.
Desde muito pequena, em uma família que pertencia a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), fui fã de São Francisco de Assis.

Uma tia italiana dizia que quem não gosta de criança, velho e animal não é boa gente.
Outra tia acolhia uma fêmea com os gambazinhos que fugiam assustados da rua movimentada.
Minha mãe era amorosa com animais, e nossa primeira cachorrinha veio para casa resgatada da rua, dentro do casacão dela.

 O amor aos seres vivos é aprendido no lar, no cotidiano com animais de estimação.

As crianças aprendem a cuidar daquele ser vivo, a dar de comer, levar para passear, deixar sossegado, dar colo, entender miados e latidos… Desenvolvem diversas expressões do afeto por seres que não são seus iguais, que oferecem amor e, por vezes, dependem de nós.

No mundo rural, o burro, o boi, o cavalo e a ovelha podem assumir relevância para as crianças e os jovens.

A ovelha pode converter-se em um animal de estimação, especialmente quando precisa ser amamentada por adultos ou crianças.
A estima e a admiração pelo cavalo são um aprendizado calcado no respeito ao animal cuja força nos enche de amor.
Não por acaso, um burro e um boi ladeiam o Menino Deus, adorado por reis e pastores. Seres vivos recebiam a criança que trazia uma nova mensagem de amor e paz.

O sacrifício de Cristo na cruz foi um ato de amor. Aceitar com humildade esse ato crístico requer de nós a responsabilidade para com o amor que Ele nos solicita.

O amor é apreendido continuamente, trata-se de um processo que começa na infância.

Para que isso aconteça, deve-se possibilitar à criança a consciência dos resultados de seus atos de afeto.
Essa experiência permitirá a expansão de nossa amorosidade, o respeito à diversidade de fauna e flora, a preservação da nossa Mãe Terra, a atitude de comiseração para com seres desvalidos.

E cumpriremos o mandato do amor, pois, sob o olhar do moço, como mostra o narrador rosiano do conto Sequência,
a vaca vermelha ia pela estrada das Tabocas e
Seguia, certa; por amor, não por acaso”.

De fato, animais fantásticos: cães, gatos, vacas, cavalos, bois…

A  autora

Vera Haas
Vera Haas e Frederico
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