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nos jornais do início do século XIX.

Colégios de Meninas nos anúncios de jornais

A imprensa brasileira, do início do século XIX, é um dos espaços onde encontramos pistas sobre a educação feminina. Um dos exemplos são os anúncios de colégios de meninas.

No dia 02 de fevereiro de 1814, entre os anúncios presentes no jornal A Gazeta do Rio de Janeiro, há o feito por D. Maria do Carmo da Silva.

A anunciante, não especifica os conteúdos que serão ministrados, mas ressalta que o preço é módico:

 D. Maria do Carmo da Silva, natural de Lisboa, assistente nesta Corte, na rua de S. José, faz saber ao público, que na casa nº 31 por cima do bordador, tem Colégio de educação de meninas, a quem promete esmerar-se em todo o gênero de educação.
Toda pessoa, que quiser servir-se do seu préstimo, pode falar-lhe; o preço é módico.
Empenhar-se-á com toda atividade, afim de que em pouco tempo saião perfeitas as suas educandas (02/02/1814).

No ano anterior, ao que parece, a mesma senhora, comunicando a abertura de colégio para meninas, listou o que seria ensinado. Observe:

 “D. Maria do Carmo da Silva e Gama, faz público que ela abriu um Colégio de Educação para quem quiser mandar suas filhas, no qual se ensina a cozer, bordar, marcar, fazer toucados, e cortar e fazer vestidos, e enfeites, lavar filós, fazer chapéus de palha, e lavá-los, e outras miudezas pertencentes a Senhoras; também ensina a ler, escrever, e contar, e Gramática Portuguesa.
A sua habitação é na rua de São José, na escada anexa ao bordador.
A mesma aceita pensionistas, que residirão no sobrado em cima
(A GAZETA DO RIO DE JANEIRO, 17/11/1813).

Eram diversos os colégios para meninas, existentes no Rio de Janeiro e em Salvador (Bahia).

Existiam os que ofereciam escrita e leitura na língua portuguesa e os que ofereciam, também, o ensino do inglês ou do francês.

Havia os que ensinavam música e desenho.

Um ponto comum era o ensino de bordado e de outras prendas domésticas.

A questão do preço era uma condição relevante.

O que ensinar e quais aulas ofertar eram definidos pelas donas dos colégios, as quais atendiam as demandas do mercado da época.

Alguns colégios atenderam moças cujas famílias tinham maiores condições financeiras, outros atenderam moças de famílias mais humildes e escravas.

Escravas?

Sim, por vezes, proprietários de mulheres escravizadas as matriculavam nas aulas oferecidas.
Esses, em geral, tinham como objetivo obter uma melhor qualidade nos serviços domésticos; oferecê-las como escravas de aluguel, ou, ainda, tê-las como escravas de ganho.

Moças de famílias humildes

Os responsáveis por moças de famílias mais simples entendiam como importante o aprendizado de um ofício.
Entre as aulas desejadas estavam: confecção de flores artificiais, costura, produção de rendas, construção de chapéus.

Na realidade das camadas trabalhadoras, o trabalho feminino livre, sempre, esteve presente no cotidiano.

Muitas mulheres, apesar de pouco mencionado, eram o arrimo da família. Outras necessitavam se sustentar e, outras, ainda, precisavam contribuir para o sustento dos seus.

Moça pobre em sua casa – Obra de Debret, 1827.
Filhas de famílias com maiores posses econômicas

O Jornal Idade D’Ouro, editado em Salvador (Bahia), publicou, no dia 16 de fevereiro do ano de 1813, a abertura de um colégio para meninas dirigido por uma senhora inglesa.

Interessante o comentário do editor:

 “Queira o céu que tal estabelecimento prospere; e que a civilização, e as luzes sejam o ornado do sexo, que faz as delícias da vida”.

Ideias e necessidades novas visitaram o Brasil.
Entre essas ideias estava a da necessidade de uma escolarização, ainda que rudimentar, para as mulheres.

Os adeptos desse pensar, defendiam que a educação feminina geraria melhores mães e educadoras para os seus filhos; esposas mais agradáveis para os homens.

A diretora do referido Colégio, publicou um informe, no mês de maio, no mesmo períodico.

O anúncio comunicava a permissão para que as estudantes, que desejassem, levassem as suas escravas pessoais para estarem com elas na escola.

Não pense essa decisão como preocupação com a instrução de meninas ou moças escravizadas.

O referido informe deixa explícito o esperado dessas acompanhantes:

A Directora do Collegio de Educação de Meninas […] participa, também, que toda a Collegial, que quizer levar a sua escrava para a servir, o poderá fazer pagando pela sua sustentação 3.200 réis em cada mez, pagos adiantados”
(Idade D’Ouro do Brazil, edição 43, 18/05/1813, seção avisos).

Os colégios femininos no cenário educativo

Apesar de presentes nos meios urbanos, podemos dizer que os colégios particulares, destinados ao ensino de meninas ou moças, não tiveram grande destaque no cenário educativo brasileiro.

As famílias de maiores posses, em geral, preferiam contratar as educadoras estrangeiras na qualidade de professoras domiciliares.
Muitas vezes, essas mulheres residiam na casa dos educandos.

A importância dessas escolas

É importante lembrar que a existência dessas escolas revela uma demanda das famílias pela oportunidade de ofertar alguns aprendizados para suas filhas, agregadas e/ou trabalhadoras escravizadas.

Sinaliza, também, a relação presente entre a educação/instrução e o status social; assim como, entre educação/instrução e razões de interesse financeiro.

Independente das motivações que levaram ao investimento na educação de uma parcela da população feminina, da época, é possível inferir que:

essas mulheres fizeram usos próprios desse capital cultural, dessas oportunidades e desses espaços educativos.
Referências citadas
Jornais:
Gazeta do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. RJ
  • Número 92. Quarta-feira, 17 de novembro de 1813. Seção Avisos.
  • Número 93. Sábado, 20 de novembro de 1813. Seção Avisos. .
  • Número 02. Quarta-feira,06 de janeiro de 1813. Seção Avisos.
Jornal Idade D’Ouro do Brasil. Salvador. Bahia.
  • Número 14. 16 de fevereiro de 1813. Seção Avisos.
  • Número 43.18 de maio de 1813. Seção Avisos.
Vide essas (e outras edições) dos jornais citados em Hemeroteca Digital Brasileira . Acesso março 2021.
Leitura sugerida:

Sobre instrução e letramento de pessoas escravizadas, sugiro a leitura do texto “A educação dos escravos e libertos no Brasil: vestígios esparsos do domínio do ler, escrever e contar (séc. XVI a XIX), escrito por Maria Helena Camara Bastos, publicado no Cadernos de História da Educação. Disponível on-line em: v.15, n.2 (p.743 – 768). Maio de 2016.

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