Elas correram pelo planeta quando não podiam correr às urnas: como Nellie Bly e Elizabeth Bisland desafiaram a Era Vitoriana e reinventaram o jornalismo mundial.

Na manhã fria de 14 de novembro de 1889, o porto de Hoboken, em Nova Jersey, fervilhava.
Sob os olhares atentos de uma multidão e os holofotes do jornal New York World, a repórter Nellie Bly, de apenas 25 anos, embarcava no navio a vapor Augusta Victoria.
Sua meta parecia saída da ficção científica: cruzar o planeta inteiramente sozinha e provar que era capaz de quebrar o recorde de 80 dias imaginado pelo escritor Júlio Verne pouco anos antes.
O que nem Nellie Bly e nem o público sabiam era que, poucas horas depois e no sentido oposto do mapa, a sofisticada escritora Elizabeth Bisland partiria a convite da revista concorrente The Cosmopolitan.
Sem querer, a imprensa estadunidense transformava o planeta Terra em um tabuleiro de xadrez humano gigante, dando início à primeira grande corrida trans mídia da história.

Enquanto Nova York acompanhava o avanço das duas jornalistas através de telégrafos em tempo real, apostas e até jogos de tabuleiro encartados nos jornais de domingo, o mundo reagia ao feito sob diferentes óticas.
I. Do outro lado do continente americano, uma ironia histórica se desenhava.
Menos de vinte e quatro horas após a largada de Nellie Bly, em 15 de novembro de 1889, o Marechal Deodoro da Fonseca liderava as tropas no Rio de Janeiro e proclamava a República do Brasil.
Essa impressionante sincronia de datas criou um “blecaute” informativo temporário por aqui.
Enquanto os estadunidenses celebravam o nascimento do “Stunt Journalism”
— o jornalismo de proeza, onde o repórter se joga na ação para virar o personagem principal da notícia —, as redações brasileiras operavam sob censura militar, completamente monopolizadas pela queda do Império e pelo exílio de Dom Pedro II.
Somente meses depois, no início de 1890, que a volta ao mundo dessas duas pioneiras começou a ecoar de forma tímida nos periódicos nacionais.
Foi lida não apenas como uma excentricidade estrangeira, mas como o espelho definitivo de uma modernidade industrial que o próprio Brasil republicano buscava alcançar.
II. O furacão contra a poetisa: Duas mulheres e duas visões de mundo

Mais do que uma disputa por velocidade, a corrida de 1889 colocou em rota de colisão duas personalidades radicalmente opostas.
A imprensa sensacionalista da época tentou, de todas as formas, pintar o embate como uma “briga de gatas” (catfight) motivada por vaidade.
No entanto, o que os diários de viagem de Nellie Bly e Elizabeth Bisland revelaram foi um fascinante duelo de estilos, intelecto e visões sobre o papel da mulher na sociedade.
De um lado estava Nellie Bly, o furacão do jornalismo investigativo.
Ela já era famosa por ter se fingido de louca para denunciar os abusos de um manicômio em Nova York.
Pragmática, direta e focada no objetivo, ela encarava a volta ao mundo como uma missão militar contra o relógio.
Viajou com apenas uma muda de roupa guardada em uma pequena bolsa de mão e passava os dias pressionando capitães de navio e maquinistas de trem para que acelerassem as máquinas.
Para Nellie, o progresso geográfico e a quebra do recorde eram tudo.
O público e os jornais da época acompanhavam ansiosos cada uma de suas paradas no sentido leste: do encontro histórico com Júlio Verne na França, passando pela travessia estratégica do Canal de Suez no Egito, até as escalas asiáticas em Colombo, Cingapura e Hong Kong, de onde partiu rumo ao Japão antes de encarar o temido Oceano Pacífico.
Do outro lado, enviada quase como um sacrifício de última hora pela revista The Cosmopolitan, estava Elizabeth Bisland.
Poetisa, crítica literária e dona de uma erudição feminina refinada, odiava a histeria da imprensa de massa e a fama repentina.
Ela aceitou o desafio a contragosto e transformou sua jornada apressada, feita na rota inversa (sentido oeste), em uma crônica profundamente poética e melancólica.
Enquanto Nellie contava as horas e os nós de velocidade dos navios, Elizabeth dedicava páginas inteiras a descrever as nuances de cores do Oceano Pacífico, os detalhes das roupas no Japão e a beleza arquitetônica das cidades asiáticas.
Ironicamente, esse choque de perfis inaugurou duas formas de fazer jornalismo que duram até hoje.
Enquanto Nellie Bly plantou a semente do jornalismo de ação e urgência (hard news), Elizabeth Bisland desenhou os primeiros contornos do chamado slow journalism — a grande reportagem focada na imersão cultural, na sensibilidade do olhar e no poder da literatura para explicar o mundo.
A histórica corrida de 1889 ao redor do mundo não confrontou apenas duas rotas opostas, mas também duas visões radicalmente diferentes do papel da mulher na imprensa oitocentista.
Esse contraste se revela, de forma imediata, na escolha de suas assinaturas.
De um lado, cruzando o globo rumo ao leste sob os holofotes do jornalismo de massa, estava ‘Nellie Bly’ — o pseudônimo audacioso que Elizabeth Cochrane adotou para dar vida a uma persona destemida, focada na denúncia social e transformada em um autêntico produto de marketing.
Do outro, viajando rumo ao oeste de maneira literária e introspectiva, estava Elizabeth Bisland.
Ao rejeitar os codinomes protetivos da época e assinar com o próprio nome, ela demarcava seu território não como uma atração sensacionalista, mas como uma intelectual e crítica respeitada pela elite literária de Nova York.
Nellie se inspirou em uma canção popular para seu nome artístico, que blindava a vida privada da jornalista ao mesmo tempo em que criava uma marca registrada.
‘Nellie Bly’ tornou-se sinônimo do jornalismo de imersão e ação, transformando-se em jogos, roupas e manchetes de jornais populares. Por outro lado, Elizabeth Bisland recusou ter pseudônimos, assim, colocava sua própria identidade civil no centro de sua produção.
Para uma editora e ensaísta erudita da revista The Cosmopolitan, o prestígio vinha do reconhecimento de sua bagagem cultural e de seus textos poéticos, e não da criação de um personagem público.
Assim, a dualidade entre o pseudônimo e o nome real sintetiza a própria essência da competição.
- Nellie Bly corria contra o tempo sabendo que alimentava o mito em torno de sua persona jornalística;
- Elizabeth Bisland viajava encarando o trajeto como um ensaio pessoal e mantendo seu nome verdadeiro como escudo de sua integridade intelectual.
Uma virou lenda da cultura pop; a outra permaneceu escritora.
III. A República
Enquanto as duas jornalistas estadunidenses cruzavam os oceanos em uma velocidade inédita para a época, o Brasil vivia o dia mais importante de sua história política moderna.
Há uma sincronia cirúrgica nas datas: Nellie Bly embarcou em Nova Jersey no dia 14 de novembro de 1889.
Menos de 24 horas depois, em 15 de novembro, as tropas marchavam no Rio de Janeiro.
Essa coincidência histórica criou uma espécie de “blecaute” sobre a corrida nas terras brasileiras.

Nos meses seguintes, enquanto o público nova-iorquino entrava em frenesi, as redações dos principais jornais brasileiros, com sede no Rio de Janeiro — como O Paiz, a Gazeta de Notícias e o Diário do Comércio — operavam sob forte censura militar e estado de sítio.
A pauta nacional estava completamente monopolizada pela queda da monarquia e os rumos do novo governo.
Foi somente no início de 1890, quando a poeira da transição política começou a baixar e Nellie Bly já cruzava o continente asiático, que o feito das jornalistas começou a aparecer de forma tímida nas páginas nacionais.
Escondidas nas seções de “Telegramas do Estrangeiro“, as primeiras notas traduzidas revelaram um olhar brasileiro curioso, marcado por um misto de assombro técnico e estranhamento cultural.
Para um Brasil que acabava de nascer como República e buscava se modernizar aos olhos do Ocidente, a viagem dessas duas mulheres foi lida como o espelho definitivo do triunfo da modernidade industrial.
A imprensa brasileira não focava na emancipação daquelas mulheres, mas sim na infraestrutura: o poder das redes globais de telégrafo e a velocidade dos navios que encurtavam as distâncias do planeta.
Era aquele o futuro tecnológico que a jovem República brasileira queria alcançar.
IV. O destino das rivais e o eco de seus passos no século XXI
A apoteose da corrida aconteceu em 25 de janeiro de 1890.
- Nellie Bly desembarcou em Nova Jersey sob uma chuva de fogos de artifício, aplaudida por milhares de pessoas ao cravar o recorde mundial de 72 dias, 6 horas e 11 minutos.
- Elizabeth Bisland, prejudicada por uma conexão de navio cancelada devido ao mau tempo no Atlântico, chegou quatro dias e meio depois.
Ambas haviam pulverizado a meta de Júlio Verne, mas seguiram caminhos profissionais opostos.
Nellie usou sua fama estrondosa no jornalismo investigativo e, mais tarde, na gestão industrial ao assumir sua herança com a morte do marido.
Elizabeth refugiou-se na literatura e em ensaios sobre os direitos intelectuais das mulheres, viajando pelo mundo no seu próprio ritmo.
Ambas haviam singrado os mares solteiras e desacompanhadas, mas acabaram se rendendo ao matrimônio alguns anos depois.
Elizabeth Bisland casou-se com Charles Wetmore em 1891 e, em 1895, foi a vez de Nellie Bly casar-se com o industrial Robert Seaman.
Quase um século e meio depois, o legado dessa corrida vai muito além das estatísticas.
Essas mulheres pioneiras não assinaram manifestos políticos tradicionais, mas praticaram o feminismo mais visceral que existe: o da ocupação de espaços.
Ao cruzarem o planeta sem a tutela de maridos ou protetores masculinos, provaram que a audácia, a erudição e a capacidade de narrar as complexidades do mundo não tinham gênero.
Se em 1889 as notícias sobre a viagem de Nellie Bly chegaram em notas curtas e traduzidas às pressas, o público brasileiro finalmente ganhou acesso completo a essa aventura em 2021.
Graças à cuidadosa tradução de Carla Cardoso e à publicação da Editora Meia Azul, o livro A Volta ao Mundo em 72 Dias ganhou vida no mercado nacional.
Como uma última e terna ironia do destino, as duas grandes rivais que um dia dividiram e correram contra a linha do horizonte hoje descansam a poucos metros de distância uma da outra, sepultadas no mesmo cemitério de Woodlawn, em Nova York.
Elas deixaram para a história muito mais do que um recorde quebrado.
Deixaram a certeza de que, seja no ritmo frenético das notícias de urgência de Nellie Bly ou na sensibilidade literária de Elizabeth Bisland, o jornalismo de excelência sempre será feito por quem tem a coragem de ir ver o mundo de perto e que lugar de mulher é onde ela quiser.
Elas são inspiração para todas nós, pois suas aventuras aconteceram em um tempo em que as mulheres ainda não podiam votar — mas já corriam mais rápido que o próprio mundo, conquistando o direito de narrar e transformar a história.
A Autora

Para ir mais fundo: Dicas de Leitura
- A Volta ao Mundo em 72 Dias (Nellie Bly | Editora Meia Azul, 2021): O relato eletrizante da própria Nellie Bly sobre sua jornada, recentemente traduzido no Brasil.
- In Seven Stages: A Flying Trip Around the World. (Elizabeth Bisland | New York: Harper & Brothers, 1891): O relato pessoal da jornalista sobre sua jornada em competição com Nellie Bly, escrito em tom literário e introspectivo.
- Dez dias em um hospício (Nellie Bly | Fósforo Editora, 2021): A primeira e mais famosa reportagem da autora, de 1887, quando ela se infiltrou em um manicômio feminino para denunciar abusos institucionais.
- A Volta ao Mundo em 80 Dias (Júlio Verne | Várias edições): O clássico da ficção científica e aventura de 1872 que serviu de combustível para toda essa disputa real.
- Eighty Days: Nellie Bly and Elizabeth Bisland’s History-Making Race Around the World (Mathew Goodman | Ballantine Books, 2013): O historiador recria em estilo narrativo a famosa corrida de 1889 entre as duas jornalistas, transformando o episódio em uma aventura histórica que combina reportagem, literatura e análise cultural.

