A boneca
A figura esguia sob a luz do poste veste um chapéu de abas que lhe esconde as feições. Debalde. A mulher-caveira é uma assombração conhecida no bairro.
Fora bonita. Agora, da face modelar restam-lhe pele sobre ossos largos, e do crânio farto de cabelos ficou-lhe um coque branco, ralo. Na expressão apontam dois olhos de faróis afundados em rugas, por conta de apertá-los na miopia atenta, retinas a formar imagens de bordas indefinidas, arruinando a solidez das linhas e dos contornos.
Por hábito, traz a câmara abraçada às mãos.
São os olhos, entretanto, a teleobjetiva. Quando captam um detalhe desabituado, aí encosta a lente ao rosto e … zoom! Goza dando foco ao imperceptível movimento do dia a dia.
Naquela noite, o ruído de latão rolando sobre o asfalto chega-lhe como imagens: as mãos jovens e fortes de Francisco, os braços de músculos marcados, a lata de lixo estancando sob o poste, a luz lambendo os cabelos que caem sobre a testa do rapaz. O porteiro estica o corpanzil.
― Boas, d. Nininha ─ a voz é mansa para tanta massa corporal.
― Boa noite, seu Chico.
Chama-o pelo apelido, mas garante o espaço de sua própria intimidade apondo-lhe um “senhor” à frente.
― A senhora não dorme?
― Quando o galo cantar ─ inspira com força e deixa escapar um suspiro. O cheiro de papel guardado, empoeirado, sobe-lhe às narinas e traz-lhe às pontas dos dedos inúmeras páginas viradas, uma canção, folhetins. A lata de lixo, compondo com o poste e o meio-fio, estende sua sombra sobre o entulho reciclável à espera da coleta seletiva. Nina fotografa mentalmente, em tons de sépia, a visão impressionista.
Francisco percebe-lhe a direção do olhar:
─ D. Norma, do décimo, fez uma limpeza lá nas estantes dela. Tem livro, revista e papéus a dar com o pau. Vai fotografar?
― Não... ─ Nina sente um frio repentino, uma contração leve e ardente na boca do estômago. Aponta alguma coisa: ─ Isso?
― Ah! Essa boneca aí, desajuntada, sei de onde veio não.
Em meio aos papéis, ali estavam desmembrados dois braços, duas pernas, um tronco e uma cabeça, de onde apenas um olho azul contemplava, vesgo, a órbita vazia do seu par.
― Vai fotografar? ─ disse Francisco, vendo-a armar a câmera.
Flash.
― Quer ver o bilhete?
Flash.
― Bilhete?
― É. A boneca aí… Foi assassinato.
― Hum?
Francisco estende-lhe um papel amarfanhado, que ela apanha com dedos em garra:
“Minha boneca destruída está. Nua, esquartejada.
Em meu isolamento agora absoluto, seus gritos ficaram,
implantados em sons interiores: Da-da, Da-da, Da-da.”
― Sabe de quem é, seu Chico?
― Sei não, d. Nininha, vou ficar devendo essa. Vai fotografar?
― Posso pegar?
― Ué, pode. Mas não tem conserto, não. É lixo.
Ela aperta os rabiscos na mão direita. Curva-se, apanha a cabeça da boneca com a outra mão. Algo balança no crânio oco, rola, despenca pelo buraco do pescoço, desce ao chão com um ploc! surdo e de lá observa-lhe fixamente a bainha das saias longas: o outro olho, de um azul mais límpido.
Nina recolhe-o, tremendo, e enfia-o de volta no interior da cabeça, junto com o bilhete. Depois procura um ângulo preciso no meio da rua.
Àquela hora da madrugada, nenhum carro passa por ali. Monta a cena, dispondo braços, pernas, tronco e, por último, a cabeça, com o olho solto sobre o papel do bilhete, cuidadosamente angulado em relação às outras partes.
Flash. Flash. Flash.
― Negócio macabro, d. Nininha.
Flash. Flash. Flash.
― Vou dormir. Boa noite ─ Francisco afasta-se, ainda esticando a atenção sobre a estranha composição no asfalto.
― Durma bem, seu Chico.
Flash. Nina estanca. Lembra a inteireza da boneca; guardara bem, em seus olhos interiores, a menina frágil que a carregava. Sempre tivera olhos de ver detalhes. Podia ver outrora, hoje.
Recolhe a boneca nos braços decidida a dar-lhe enterro, e chora. Há pessoas que se enfadam do cotidiano porque só lhe percebem os efeitos na soma de muitos anos.
Ela não, ela é capaz de acompanhar as transformações no ínfimo dos movimentos. Pode dispor mentalmente os fotogramas, ir e vir no tempo e no espaço.
Conhece a dinâmica e os ritmos das mudanças. Percebe-lhes os jogos de luz e sombra, as trocas de perspectiva, as nuanças de figura e fundo. As tramas, as comédias, os dramas, as tragédias ‒ ela as acompanha todas. Pode passear o tempo com cada uma delas. Só não as pode desfazer.
Sobre aquelas partes fora capaz de montar o filme inteiro. Podia rodá-lo e rebobiná-lo: da boneca à menina, da menina à menopáusica vizinha do terceiro andar. A mesma que em seu isolamento destruíra a boneca sem lhe destruir o apelo:
― Da-da, da-da, da-da.
A AUTORA


