Concurso de composições de Santo Alexis.
Concours dês ecoliers, la veille du jour de St. Alexis
O olhar de Debret.

Muitos estrangeiros registraram as suas impressões sobre o Brasil. Jean-Baptiste Debret (1768 -1848) foi uma dessas pessoas.

O francês viveu 15 anos no Brasil. Ao longo desse tempo, registrou suas observações, na forma de textos e de aquarelas.

Quando retornou para a capital francesa, sua terra natal, reuniu a sua produção na obra Voyage Pittoresque et Historique au Brésil; a qual foi publicada em três volumes, entre os anos 1834 e 1839.

Entre outros temas, Debret legou observações sobre a educação e o comportamento das brasileiras da época.

A gravura Une dame brésilienne dans son intérieur (1823), apresentada a seguir, é um exemplo desses registros.

Une dame brésilienne dans son intérieur
A educação das mulheres brasileiras pelo olhar de Debret

Era o ano de 1816 quando Jean-Baptiste Debret chegou ao Brasil.

Uma de suas primeiras observações foi em relação ao comportamento das jovens brasileiras. De acordo com o francês, justificado pela pouca instrução que recebiam.

Uma instrução restrita a “[…] a recitar preces de cor e a calcular de memória sem saber escrever nem fazer as operações(1965b, p. 17).

Em geral, as mulheres observadas por Debret, eram muito tímidas.
Tal timidez, ele observa: “levava as mulheres a temerem as reuniões mais ou menos numerosas e, ainda, qualquer espécie de comunicação com estrangeiros”.

Ainda, segundo os seus relatos, os pais e maridos não incentivavam e nem investiam na educação de suas mulheres. Por quê?
Pelo medo da correspondência amorosa.

Parece que a falta de instrução não impedia tal correspondência.

É, ainda, Debret quem relata sobre um tradicional sistema de comunicação amorosa; o qual, ele chamou de ‘Dicionário erótico’.

Nesse “dicionário”, os códigos, passados de geração para geração, eram compostos por flores, frutas e ervas.

As mulheres, utilizando dessa linguagem simbólica, expressavam um pensamento ou pedido:

 “[…] de modo que uma simples flor oferecida ou mandada era a expressão de um pensamento ou de uma ordem transmitida, aos quais podiam ligar consequências diversas pela adição de inúmeras outras flores ou de simples folhas de certas ervas convencionadas de antemão (1965, p.17 – 18)”.

O artista transcreveu exemplos desses códigos. Cito alguns:

  • rosa (amor);
  • alfazema fresca (ternura);
  • alfazema seca (ódio),
  • a fruta cajá (venha imediatamente / cá – já).
Arte: editora de Histori-se.
Mudanças: 1816 a 1830

A Família Real no Brasil e a educação feminina

Debret permaneceu no Brasil até o ano de1831.
Em 1823, desenhou a gravura Une dame brésilienne dans son intérieur para, segundo ele, tentar mostrar a solidão habitual das mulheres.

Ao descrever a cena, o artista disse sobre as mudanças que ocorreram na educação feminina:

“A moça da casa, pouco adiantada na leitura, embora já bem grande mantêm na mesma atitude de sua mãe, mas, colocada num assento infinitamente menos cômodo, esforça-se por soletrar as primeiras letras do alfabeto traçadas num pedaço de papel. […].
Na época em que desenhei esta cena, era ela mais ou menos comum na cidade; devo acrescentar com justiça que em 1830, ao contrário, não era raro verem-se as filhas de um simples funcionário distinguir-se pela dança, a música e algumas no
ções de francês, educação que as fazia brilhar nas festas e lhes dava possibilidade de um casamento mais vantajoso”
(1965 a, p.128 e 129).

Ler é uma distinção social

A alfabetização feminina, ao longo do tempo, em especial, nas cidades, passou a ser valorizada como parte de uma vitrine social.

O francês (1965b, p. 17), reparou: “[…] uma moça bem-educada tem o cuidado hoje em dia de mostrar o seu livro de missa durante o trajeto para a igreja”.

Debret avaliou que a Vinda e, principalmente, a permanência da Corte Portuguesa no Brasil provocaram grande investimento das famílias na educação, inclusive na educação feminina.

Para ele, o ano de 1820 pode ser entendido como um marco; pois, de acordo com suas observações, “[…] a educação começou a tomar verdadeiro impulso e os meios de ensino multiplicaram-se”.

Entre esses meios, ele cita os colégios particulares; professores e professoras que ministravam lições em domicílio e, ainda, professores particulares.

Os colégios

Debret informa que, no ano de 1816, existiam dois (2) colégios particulares no Rio de Janeiro, mas que, com o tempo, esse número aumentou, pois:

[…] senhoras portuguesas e francesas, com ajuda de um professor, já se comprometiam a receber em suas casas, a título de pensionistas, moças que quisessem aprender noções de língua nacional, de aritmética e de religião, bem como de bordados e costura(1965b, p.17).

Lições em domicílio

Havia homens e mulheres que ministravam aulas nas casas das famílias contratantes.
Lecionavam, de acordo com o combinado, lições de: francês, inglês, geografia, dança, canto, piano.

Professores domiciliares

As famílias de maiores posses econômicas, em geral, costumavam contratar professores particulares para residir em suas residências e ensinar seus filhos e suas filhas.

Nesse caso, a preferência, era para professores que fossem sacerdotes.

Observe, o anúncio, publicado, na seção “Avisos”, do jornal A Gazeta do Rio de Janeiro, no dia 02 de fevereiro de 1814.

A publicação solicita um professor domiciliar, capaz de acumular as funções de Capelão do sítio e de mestre das quatro crianças:

 “Deseja-se um Sacerdote bem morigerado para Capelão de um sítio, e mestre de um menino e três meninas.
As vantagens, que obterá por estes encargos, serão proporcionais à extensão e qualidade da instrução que ele for capaz de dar aos seus discípulos: e se poderão tratar com o Reverendo Padre Domingos Lopes Ribeiro, morador na rua dos Pescadores, nº 11
”.

Podemos encontrar outros sinais da educação feminina na imprensa da época?

Leia o próximo texto em: Colégios de meninas nos jornais do início do século XIX.

Dados para citar este texto:

CARRA, Patrícia R. Augusto. Educação de Mulheres: o olhar de Debret. HISTORI-SE, 41ª edição, Porto Alegre, 2026. Disponível on-line em: Educação de Mulheres: o olhar de Debret. Acesso em: __/__/___.

Referências citadas:
  • DEBRET, Jean Baptiste. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. Tradução e notas de Sérgio Milliet. 4ª ed. Biblioteca Histórica Brasileira e Livraria Martins Editora: São Paulo, Tomo I (volumes I e II), 1965 a.
  • ___________________. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. Tradução e notas de Sérgio Milliet. 4ª ed. Biblioteca Histórica Brasileira e Livraria Martins Editora: São Paulo, Tomo II (volume III), 1965 b.
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