Gastronomia Popular e Feminista.
Já se vão alguns anos que pesquiso sobre ‘mulheres das classes populares, alimentação e trabalho-educação’
Na verdade, acho que comecei a pesquisar sobre isso ainda criança.
- Observando minha mãe cozinhando cotidianamente e registrando seu desgosto em ter que ficar na cozinha.
- Ou quando me encantava vendo a minha avó fazendo bolos, massas, cremes em uma mesinha de madeira com o tampo branco de pedra, que guardo até hoje na memória. Era escorada nesta mesa que me impressionava com o que ela fazia com as mãos.
Nas férias, eram minhas tias que ocupavam a cozinha fazendo mil e um lanchinhos para nós, sobrinhos que saíam da capital para passar dias frios em Bagé.
Na escola, as merendeiras comandavam a cozinha como um maestro rege uma orquestra, e as vezes me deixavam ajudar, abrindo pãezinhos para depois passar doce de leite, que chamávamos de pão com mumu.
Não foi difícil perceber que algo em comum pairava sobre os espaços de cozinhar do meu cotidiano: eram mulheres, todas mulheres, aquelas responsáveis pelas cozinhas.

Foi assim que meu problema de pesquisa logo apareceu, pois quando comecei a estudar no curso de Gastronomia e trabalhar na área, percebi que ali os lugares das mulheres eram outros.
O chef era, quase sempre, representado por um homem branco. Era, quase sempre, era reconhecido por sua técnica perfeita ou inovadora.
As mulheres continuavam sendo a maioria nas cozinhas que alimentavam trabalhadores, crianças e famílias, mas a cozinha das mulheres era carregada de uma falta de prestígio.
Na Gastronomia, quanto mais distante a postura de quem cozinha estava da cozinha doméstica, mais reconhecida era. Eu não achava isso justo!
Ao mesmo tempo, historicamente, a cozinha foi uma ferramenta usada pela sociedade patriarcal e racista para controlar as mulheres.
Cozinha é lugar de mulher!
Volte para a cozinha!
São frases ainda utilizadas para nos lembrar que temos um lugar e que este lugar não é escolha nossa.
Demorei um pouco para perceber que o problema não era a cozinha, mas o sentido que tinham dado para ela.
E foi assim que olhar para o trabalho de cozinha das mulheres das classes populares se tornou o caminho que encontrei de pensar novos sentidos para a cozinha e perceber no saber-fazer das mulheres possibilidades para pensar uma Gastronomia Popular e Feminista.
A AUTORA

