Khouri, Conti e Passô: diálogos possíveis
Os fios aparentemente soltos de Nosso segredo (2026), de Grace Passô, me fizeram recordar o filme As filhas do fogo (1978), de Walter Hugo Kouri.
As duas obras oferecem à plateia pistas que, ao final da narração, oferecem os sentidos possíveis.
O filme de Khouri pode ser considerado de mistério, ou de horror psicológico, trata-se de um filme atmosférico, repleto de simbolismos. A casa funciona como um espaço fundamental para a trama e as memórias que dela participam. Elementos sobrenaturais atravessam a história das mulheres que formam o núcleo central da trama.
No filme de Passô, o luto e as memórias aparecem nas paredes da casa, no andar superior da casa, no pátio. A casa, da própria cineasta, é também uma cartografia de lembranças e afetos. É um território do estar presente, do estar ali.
O hipopótamo e o barro funcionam como metáforas para o que desacomoda, para o que se esconde sob a dor da perda.
A figura da Pretinha, o/a hipopótamo, parece dialogar com o ser negro em uma família em que apenas o pai foi branco.
O animal, símbolo que podemos relacionar à mãe da humanidade Yemoja, à deusa Taweret e ao deus Seth e a Beemoth – as mitologias nigeriana e egípcia e o livro de Jó -, revela os caminhos que forjam aquela família, a força e a fluidez desse cavalo da água, a ferocidade que protege a cria.
Yemoja e Taweret simbolizam a fertilidade, a criação.
Seth e Beemoth estão relacionados à destruição, e simultaneamente ao que desaparece para que outra força nasça.
Pretinha está ali, está presente na cena final, do filho mais velho nu em posição fetal.
Não por acaso a entrada em cena do quadrúpede, típico das paisagens africanas, fez-me lembrar a leoa que encontra o menino Momo, órfão senegalês no filme Rosa e Momo (2020), de Edoardo Conti.
Para a criança que vive o luto pela perda da amiga Rosa, a grande felina evoca os gestos maternos que acolhem, abraçam, brincam, protegem.
Rosa e a mãe, essa perdida há muito tempo, repousam na força e na calma da leoa.
Passô realiza um filme em que a palavra, a imagem e os sons (rígidos, som do portão) falam da família negra brasileira, de como lidar com os problemas, as dores e os amores.
A cineasta e dramaturga ousa na linguagem, provoca nossos segredos e nossos movimentos para nos relacionar com o filme.
A Autora:
Vera Haas

Nota:
Sobre o filme de Edoardo Conti, veja Rosa e Momo.

